Há os que, quando o ano se curva para o fim, voltam-se para dentro.
Gente que desacelera o passo, afina o ouvido para o que não se diz em voz alta, e encontra morada no silêncio.
São os que percebem que, quando tudo ao redor se agita, é tempo de se aquietar por dentro.
Conto-me entre eles.
E foi nesse espírito de recolhimento que me veio à mente Vander Lee, mineiro que partiu antes do tempo, mas nos deixou melodias que parecem conversas com a alma. Canções que refletem muito do meu próprio pensar.
E ele cantou, com a precisão de quem fala por muitos:
“Sabe o que eu mais quero agora…?
Morar no interior do meu interior…
Aonde Deus possa me ouvir…”
E foi exatamente isso que fiz nesta madrugada em que as luzes da cidade apontam que é dia de se viver o Natal.
Permiti-me habitar esse espaço sagrado e escondido.
Aqui, entre os corredores da memória e os sótãos do sentir, encontrei ecos antigos…
E neles, uma presença que, tantas vezes, não se manifestou com abraços, mas com ausências. Com os “nãos”.
Pouca coisa é mais difícil de compreender do que o silêncio de Deus.
Mas talvez, mais difícil ainda, seja acolher o Seu “não”.
C. S. Lewis, que na juventude abraçou o ateísmo com convicção filosófica profunda, afastando-se da fé até a entrada da idade adulta, acabou por compreender, já desperto à espiritualidade, que algumas das maiores misericórdias de Deus em sua vida foram os seus ‘Nãos’.
E, neste instante de rara contemplação, neste lugar onde o tempo desacelera e o coração se alinha, esse mesmo entendimento ganha, para mim, contornos mais nítidos.
Não porque deixei de sentir dor.
Mas porque, por um breve intervalo, pude olhar com lucidez para aquilo que, antes, só me alcançava como ferida.
Projetos que pareciam certeiros esbarraram em portas que não se abriram.
Planos bem-intencionados que não vingaram.
Ideias que não germinaram.
E isso trouxe tristeza, desalento, a sensação de estar desalinhado com o que parecia destino.
Mas agora percebo: os “nãos” não foram recusa, foram zelo.
Foram desvios silenciosos traçados por quem conhece os perigos invisíveis aos meus olhos.
Foram ajustes de rota feitos por Aquele que não apenas me observa, mas me conhece como quem me moldou por dentro.
Ele, meu Criador, não me conduziu ao lugar que eu achava ideal,
mas ao espaço exato onde só quem sabe a textura da alma que formou poderia me plantar.
E sei: a vida seguirá oferecendo ausências.
E eu, frágil como sou, ainda me inquietarei.
Mas que, nesses momentos, eu tenha forças para retornar a este chão secreto,
ao interior do meu interior,
e aqui lembrar, mais uma vez,
que até o silêncio de Deus educa,
e que há um tipo de amor que não precisa se explicar,
porque sua fidelidade está não em dizer “sim”,
mas em jamais deixar de cuidar.




