Quando Alguém Diz: Lord, Take Care of Me


Muitas vezes as músicas nos marcam.
Nos seguem pelos corredores da memória, nos tocam como mãos invisíveis. Mas quase nunca paramos para escutar o que elas realmente dizem, quais emoções carregam no silêncio entre duas notas, quais cicatrizes traduzem em versos, quais paixões, decepções e esperanças se escondem nas palavras que repetimos sem perceber seu peso. Há canções que só nos tocam quando ousamos ouvi‑las por dentro.

Foi assim, nesta madrugada de domingo, o último de 2025, quando parei diante de “How Can I Go On”, interpretada por Freddie Mercury e Montserrat Caballé. As perguntas iniciais que ecoam na canção, How can I go on? Is anybody there to believe in me? To hear my plea and take care of me? (Como posso continuar? Há alguém aí para acreditar em mim? Para ouvir meu apelo e cuidar de mim?); todas juntas formam um mosaico de dor que nos pede pausa e escuta.

E, embora essa letra não fale de mim, essa dupla que me habita, a poesia e a imaginação, quis praticar a empatia, tentando sentir, ainda que de longe, o que vive alguém que carrega um sofrimento assim: a solidão de quem perdeu o que segurava seus passos, a ausência de um colo para descansar a exaustão, a pergunta insistente sobre onde repousar o coração num mundo que tantas vezes parece áspero demais.

Não sei qual foi o ponto exato que ancorou a composição, se a dor, se a esperança, se ambos em diálogo secreto. Mas eu parei justamente onde a esperança se insinua, lá onde o pedido se transforma em chama tímida, pequena, mas resistente. Porque é nessa fresta que algo se levanta dentro de nós, a certeza de que seguir adiante é possível quando há, mesmo que distante, um vestígio de cuidado.

“Lord, take care of me.”
(Senhor, cuide de mim.)

Para mim, é aqui que repousa o gesto mais profundamente humano dessa canção: alguém que, mesmo ferido, ainda não perdeu a coragem de pedir cuidado. E pedir cuidado é uma forma de fé, não apenas na divindade que nos escuta em silêncio, mas na possibilidade de que alguém, aqui e agora, possa ser canal desse cuidado.

Ainda que o Lord represente nossa carência do sagrado, do amor absoluto, é muitas vezes por meio de um de nós que Deus se revela ao outro. É no gesto que acolhe, no ouvido que escuta sem julgar, na presença que permanece quando o mundo se afasta, que a graça toma forma humana.

Sim, a dor existe, e ela foi cantada com uma verdade que atravessa décadas.
Mas a esperança também está lá, não como certeza, mas como procura.
Como quem diz: “eu continuo porque ainda desejo ser ouvido, e ser visto, e ser cuidado.”
E não há poesia maior do que essa insistência em seguir na direção do afeto.

E é neste ponto, onde a dor encontra a esperança e se inclina à possibilidade de ser acolhida, que a canção se resume para mim. Porque a esperança não apaga a dor, ela a suaviza, a torna respirável, habitável, e nos lembra que nenhuma noite é eterna quando se deseja amanhecer.

Que a música, essa linguagem secreta entre corações, não apenas nos revele, mas também nos torne sensíveis às pessoas que vivem o que a letra canta, mesmo quando não percebemos que elas estão ali, ao nosso lado, a um passo de distância, precisando apenas que alguém as ouça com presença verdadeira.

Convido você, que me lê agora, a ouvir essa canção mais uma vez, mas com outro olhar. Não apenas como quem admira sua beleza, mas como quem se permite reconhecer a dor que ela carrega, e se abre para escutar, com coragem e compaixão, quando alguém próximo, mesmo em silêncio, disser o mesmo: “Lord, take care of me.”

Porque às vezes, até quem parece forte carrega esse pedido calado.
Mesmo quem não vive, literalmente, o que a canção revela, também precisa, em algum nível, desse cuidado que vem do alto, mas se revela através de nós.

E que, após a última nota, não cesse também a escuta.
Que algo fique em nós um eco suave, uma lembrança viva,
do quanto é humano e necessário saber pedir cuidado…
e do quanto é divino ser capaz de oferecê-lo.

Que sejamos, então, resposta possível.
Presença sensível.
Mão estendida.
Para que ninguém precise caminhar sozinho quando ousar dizer:
Senhor, cuide de mim.