Há uma sabedoria silenciosa no caminho dos rios e no traçado das rodovias. Ambos nascem com um destino: chegar. E ao longo desse caminho inevitável, encontram pedras, montanhas, fendas, curvas, buracos, abismos. Mas não estancam. Porque nem rios, nem rodovias, foram feitos para parar. Foram feitos para seguir.
O rio, diante da pedra, não se lança em luta. Ele observa, espera, contorna. Se necessário, dissolve aos poucos o que o impede, escava margens novas, amolece a terra, muda o curso, mas não o propósito. E segue. Há ali uma lição profunda: vencer não é sempre romper; às vezes, é persistir com doçura. Como a água, que vence a rocha não pela força, mas pela constância, como ensinou Lao Tsé, antigo pensador da suavidade que transforma.
A rodovia, por outro lado, segue outra lógica: diante do abismo ou da montanha, ela não curva. Planeja. Mede. Esculpe. Crava estacas no chão, ergue pilares de concreto, desenha curvas impossíveis para manter a direção. Ela também segue, mas pela engenharia do enfrentamento. Ela mostra que, quando não há como contornar, talvez seja preciso atravessar. Rasgar o que impede. Criar passagem onde não havia.
Somos, todos, pontes entre essas duas formas de caminhar. Há dias em que nos pedem leveza de rio, e outros, firmeza de estrada. Obstáculos nos chegam em formas variadas: um “não” recebido, um luto silencioso, uma espera longa demais, uma frustração que soterra planos. E em cada um deles, a mesma pergunta muda de tom: como seguir agora?
Então, quando a vida parecer intransponível, lembrar-se de que os rios não cessam diante da pedra, moldam seus caminhos em torno dela; e que as rodovias, frente ao intransponível, não se rendem, escavam, elevam, inventam passagens; é convite à escuta do próprio caminho. Convite ao gesto interno de não aceitar a paralisia como destino.
Porque lembrar dos rios e das rodovias, nesses momentos, é lembrar que ir além do obstáculo não é negar sua presença, mas transformar seu sentido. É reconhecer a existência da pedra e ainda assim, insistir no curso. Ir além do que interrompe. Além do que pesa. Além do que parece dizer: “daqui não se passa”.
Talvez seja essa a arte maior: fazer da dificuldade uma dobradiça e não uma tranca. Talvez a alma, como os caminhos, só exista em movimento.
E assim, entre curvas e escavações, vamos traçando a geometria secreta de seguir.




