Pois não é de hoje que o homem se desfaz na esquina de si mesmo.
Traz no peito a intenção nobre, no gesto o tropeço antigo.
Quer a luz, mas seus pés preferem atalhos sombrios, como se as sombras conhecessem melhor o caminho de volta.
Dentro dele mora um juiz severo,
mas o corpo é feito de impulsos que não pedem licença.
Entre o querer e o fazer, há um abismo de silêncio,
onde gritam vontades que ele mesmo não reconhece como suas.
Ele traça mapas de virtude, sonha com pontes de equilíbrio,
mas sua alma, por vezes, navega em rios turvos,
e o leme escapa das mãos justamente quando mais firme ele tenta segurá-lo.
Como se fosse refém de uma lógica invertida:
quanto mais deseja o bem, mais o mal sussurra familiar.
Inspirado na angústia de Paulo, o Apóstolo,
eu mesmo compreendo assim:
há algo em mim que me sabota,
algo que me vê, me sabe, e mesmo assim me empurra no sentido oposto.
Talvez sejamos todos contraditórios por natureza,
esculturas inacabadas tentando andar em linha reta sobre pedras tortas.
E a tragédia não está em cair,
mas em saber que cairíamos, e ainda assim darmos o passo.
No fundo, o humano é esse duelo constante
entre o que quer e o que consente,
entre o que deseja e o que executa,
entre o que é e o que poderia ser,
se não estivesse tão enredado nos fios invisíveis de si mesmo.
E assim seguimos:
carregando dentro de nós dois viajantes.
Um que aponta o norte,
e outro que insiste em dançar com o sul.
Mas se há um alento, e há,
é que o homem, mesmo cindido, ainda pensa.
E como dizia Kierkegaard,
“a angústia é o vértice da liberdade”:
é só quem reconhece o abismo que pode recusar a queda.
A consciência, embora dolorosa, é um gesto de resistência.
E para aquele que se permite, há ainda um consolo mais alto:
o homem pode contar com Deus.
E nisso, nisso habita a verdadeira esperança.




