Esse Baile de Máscaras
Há madrugadas em que cultivo um intervalo precioso entre o cansaço e a lucidez, entre a serenidade do corpo que repousa e a inquietação da alma que desperta. É nesse entrelugar, onde o silêncio se alonga e os pensamentos ganham coragem, que permito à mente vagar por caminhos que o dia, com sua pressa, não deixa visitar.
E nesta madrugada de 27 de dezembro, fui levado mais uma vez ao encontro de uma velha conhecida, uma canção que, ao longo da vida, tornou-se parte da minha trilha sonora existencial. Não tanto pelo que diz, mas pelo que representa.
A canção a que me refiro é “This Masquerade”, interpretada por George Benson, que não canta apenas notas, mas sentimentos. Uma música que fala de um amor ferido por distâncias emocionais, palavras truncadas e silêncios cúmplices, culminando não apenas no título, mas em sua essência, um baile de máscaras, de aparências, onde dois já não se veem de verdade.
“This Masquerade” foi, para mim, mais do que uma canção. Foi o primeiro sopro de liberdade musical que atravessou minha adolescência nordestina, num lar onde o som era vigiado com zelo aparente. Meu saudoso pai acreditava que a música sacra cristã era a única digna de albergar audição, a única capaz de preservar a alma, e tudo fora disso era ruído mundano.
Mas aquela canção deslizou pelas margens do permitido, insinuando-se com suavidade, e ali eu percebi: há beleza fora das grades, céu fora do que é sacro. Foi através dela que meus ouvidos, e meu mundo, começaram a se expandir.
Hoje, no entanto, vejo naquela melodia melancólica, mais do que a imagem de um casal que se desencontra no escuro. Vejo um retrato delicado, e por vezes implacável, da nossa condição humana, feita de ausências veladas, palavras interrompidas e sentimentos que se ocultam sob expressões cuidadosamente ensaiadas. Percebo que a canção não fala apenas de dois. Fala de todos. Fala de nós.
Sobre o grande teatro cotidiano que exige máscaras para quase tudo. Na vida social, quase nada é tão livre quanto parece. Os sorrisos, os gestos, até os silêncios, tudo segue um roteiro implícito. Há lugares em que se exige mais do que presença: exige-se personagem. E assim vamos nos curvando às expectativas, ocultando nuances, afinando o tom da voz conforme o público que nos assiste.
Mas há uma contradição nisso, e ela é bonita em sua complexidade: as máscaras não são apenas prisão. Às vezes, são abrigo. São o que nos permite transitar em territórios hostis, negociar afetos, sobreviver às exigências do mundo. São por vezes estratégias, não sempre fraudes. Talvez não sejamos menos autênticos por usá-las… talvez sejamos apenas humanos demais.
Ainda assim, é inevitável a pergunta: e se, por um instante, pudéssemos viver sem máscaras? Seria tudo mais leve ou mais brutal? Haveria mais verdade ou apenas mais feridas expostas?
A liberdade plena dói. O desmascaramento pode ser beleza… ou crueldade. Nem toda alma está pronta para ser vista, nem todo olhar está pronto para acolher o que é nu. E é nessa oscilação entre o desejo de ser visto e o instinto de se proteger, entre o impulso de se revelar e a necessidade de se preservar, que seguimos.
Talvez por isso continuemos dançando, com certa dignidade, nesse baile de máscaras que a vida nos convida a seguir. Não por falsidade, mas por delicadeza. Por cuidado. Porque nem sempre se pode entregar o avesso do peito a qualquer olhar.
Quanto a mim, felizmente nesse baile onde tantas faces se confundem, há um refúgio onde não se exigem máscaras. Um canto silencioso e íntimo, entre os meus, onde o amor é repouso, e a aceitação, natural como o ar. Ali, não há jogo de aparências, nem necessidade de disfarce. Ali, não sou o que esperam, sou o que sou. Ali, a música permanece, mas é a nossa vida que compõe a letra.
Só que agora, quando o sol já desponta pela janela e a vida começa a chamar de novo com sua rotina inevitável, volto a ouvir a melodia, não mais com o peso das máscaras, mas com a leveza de quem se permite apenas sentir. Fico com os acordes, singulares, quase falados, com a guitarra que desliza em notas densas e precisas, com o piano que toca como quem conhece segredos antigos, e com a percussão impecável, que pulsa fora do óbvio, marcando um tempo que não é do relógio, mas da alma.
Deixo que esses sons preencham o que resta da madrugada, como brisa suave, enquanto me recordo do tempo em que descobri que há céu fora do que é sacro, que a beleza também habita o mundo fora das doutrinas.
E nesta madrugada, como em tantas outras, não encontrei respostas.
Mas reencontrei o valor das perguntas. E talvez, no fundo, viver seja isso: dançar no baile da vida com consciência de que usamos máscaras…e saber a hora e o lugar de tirá-las.




