Depois dos Nove Meses, o Que Chamamos de Vida?


Passei essa última noite viajando. Enquanto a estrada se desenrolava sob os faróis e o condutor mantinha o rumo firme, alguns dormiam. Mas eu, ao invés de entregar o corpo ao cansaço, entreguei a alma à música.

Percorrendo o silêncio da madrugada através de um aplicativo de streaming, fui vasculhando melodias como quem procura sentidos esquecidos. E foi então que me deparei com “Pedágio”, de Moacyr Franco.

A canção é um desabafo poético de quem carrega no corpo e na alma as marcas de uma vida dura, feita de fé frustrada, batalhas injustas, sonhos arrancados, amores tardios e um mundo que insiste em se destruir. Fala de alguém que, depois de tantas perdas e travessias, aprende que só o instante presente e o amor que nele cabe, é capaz de dar algum consolo.

É um lamento suave, uma súplica por um último pedaço de beleza antes que tudo acabe.

Eu, no entanto, me apeguei a uma frase específica, que veio como uma navalha mansa no meio da letra: “Só se vive mesmo nove meses.”

Essa sentença, quase sussurrada em melodia, fez com que tudo ao redor perdesse ruído. Nove meses. Justamente aqueles do ventre, do mistério, do escuro úmido e protegido, do antes do mundo.

E então pensei: talvez viver de verdade seja isso, o impulso cego, a corrida silenciosa rumo à luz. São nove meses de construção para o nascimento, esse momento que todos celebram como começo, mas que, paradoxalmente, é também o início da contagem regressiva.

A partir dali, o que fazemos? Nascemos para existir ou para viver?

Foi Oscar Wilde, com sua língua afiada de lucidez, quem nos deu uma resposta desconcertante: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”

E é aí que tudo se entrelaça: a canção do Moacyr, a frase, o ventre, Wilde, e o tempo que temos nas mãos, tantas vezes desperdiçado com o que não pulsa, não vibra, não nos transforma. O nascimento, que carrega em si a promessa da plenitude, por vezes se dilui no ruído do mundo e, sem que se perceba, se transforma no ponto de partida de uma vida que apenas passa, sem realmente acontecer.

Por isso, se aqueles nove meses foram a preparação para a vida, então os anos que se seguem precisam ser a continuação dessa jornada, não em direção ao fim, mas ao sentido. Não basta nascer. É preciso, todos os dias, insistir em nascer de novo.

É preciso ousar viver, como extensão daquele primeiro movimento rumo à luz.
É preciso lembrar que a vida não se completa no parto, ela começa ali, mas se realiza na coragem diária de existir com verdade.

Se só se vive de verdade nove meses, que cada dia depois deles seja uma tentativa desesperada e bela de se reconectar com aquele impulso primeiro: o de nascer, o de vir à luz.

Que Moacyr continue cantando para os atentos. Que Wilde continue nos sacudindo.
E que nós, mesmo tendo chegado há muito, sigamos correndo, não para o fim, mas para dentro da vida.

Porque existir é inevitável.

Mas viver… viver é uma arte.