Prefiro a cadeira gasta ao trono dourado.
Prefiro o pão repartido entre feridos à taça de cristal entre fingidores.
Porque há mais verdade num suspiro de arrependimento do que em mil palavras de quem nunca se viu no espelho da própria alma.
Assento-me, sem cerimônia, à mesa dos pecadores, não os que se gloriam no erro, mas os que sangram por dentro ao reconhecê-lo.
Ali, entre olhos úmidos e mãos trêmulas, habita a autenticidade.
São humanos demais para fingir santidade, fortes o bastante para não disfarçar a queda.
A cada confissão, um templo se ergue. A cada lágrima, um altar de redenção.
Do outro lado, na mesa do perfeito, do imaculado de fachada, vejo sorrisos engessados, palavras medidas e olhares que julgam antes de compreender.
São justos apenas nas aparências, como vitrines limpas que escondem porões escuros.
Não se ferem, não se perdoam, não se revelam.
São santos de gesso: bonitos por fora, ocos por dentro.
Mas eu?
Eu prefiro o tropeço sincero à marcha ensaiada.
Prefiro quem assume o abismo que carrega, pois só quem reconhece sua escuridão pode caminhar em direção à luz.
Ser real é um ato de coragem.
Ser perfeito… é apenas um papel mal escrito num teatro sem alma.
Entre a máscara e a cicatriz, escolho a cicatriz, ela me conta histórias, ela me ensina caminhos, ela me mostra quem sou.
Porque no fim, o que transforma não é a pose de santidade.
É a coragem de ser inteiro, ainda que quebrado.
É o poder de se sentar, de igual para igual, entre aqueles que erraram, mas decidiram levantar.
E ali, naquela mesa simples, sem toalha branca nem talheres de prata,
a verdade serve o banquete mais sagrado que existe: o de ser humano.




