Mantenho na rede social Instagram o canal @wttg.magno, onde divulgo algumas das minhas prosas. Lá reúno o que suaviza meus dias: escrever, a arte e a música.
Cada postagem é acompanhada de uma sinopse, sempre ancorada por uma obra de arte e uma canção que fez ou faz parte do meu gosto musical. É assim que organizo sensações, memórias e críticas, com beleza, palavra e som.
E além de administrar minhas próprias postagens, não é incomum que eu também busque por aquilo que estão postando por aí, imagens, frases, ideias que atravessam o tempo digital e, por vezes, tocam fundo. Como faço aqui no Recanto também, onde busco captar, no pensamento de muitos escritores, as entrelinhas que revelam o sentir humano, suas inquietações, críticas, dores e esperanças, e que contribuem para que este canal seja tão rico em reflexões e poesia.
Cada leitura, por vezes breve, é um convite à escuta do mundo e de si mesmo.
Hoje, porém, enquanto rolava a tela do celular, como quem vasculha o mundo pelos dedos, deparei-me com uma frase solta, sem autor, sem moldura, como quem não precisa de identidade para ser verdade:
“Guarda sua pedra. Você também erra.”
Parei. Como se aquela frase tivesse me empurrado para fora da bolha.
Porque, no fundo, ela não era apenas uma frase. Era um espelho.
Lembrei imediatamente da passagem que ecoa há séculos, dita por um homem cercado de acusadores sedentos de sangue e certezas: “Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro que atire a pedra.” (João 8:7)
E como atiramos, hoje, mesmo com os bolsos cheios de nossas próprias transgressões.
Não mais pedras físicas, mas comentários, linchamentos virtuais, sarcasmos afiados, indignações seletivas.
Atiramos sem saber. Ou pior: às vezes sabendo, e atirando mesmo assim.
Vivemos tempos onde o erro alheio é entretenimento e o nosso erro é “contexto”.
Apontar o dedo virou um esporte coletivo, e o tribunal se instalou no feed.
Juízes sem toga, sem processo, sem defesa.
Quem erra, ou quem é acusado de errar, vira espetáculo.
Somos, todos, filhos de uma geração que trocou a empatia pela performance moral.
E talvez sejamos isso também, reflexo de um sistema de justiça que tantas vezes falha em ser justo.
Assistimos, dia após dia, o peso da lei cair de forma seletiva: brando com os fortes, impiedoso com os frágeis.
Vemos condenações sem provas, absolvições com apadrinhamento, lentidão para os pobres e urgência para os poderosos.
Talvez, de tanto ver a injustiça, muitos tenham decidido ser a justiça com as próprias mãos, ou com os próprios posts.
Mas justiça feita com ódio não é justiça. É só mais uma forma de vingança.
Errar é humano, mas julgar o outro como se não errássemos, é desumano.
Nas redes, onde tudo é instantâneo, esquecemos que há vidas por trás dos nomes, histórias por trás dos erros, dores que não cabem em legenda.
Não é relativizar a responsabilidade. É entender que justiça sem compaixão é só vingança vestida de regra.
E que se a justiça divina começa com a pergunta “quem está sem pecado?”, talvez a justiça humana precise começar com outra: “O que posso fazer para não errar da mesma forma?”
Na próxima vez que meus dedos quiserem atirar uma pedra, que minha consciência me lembre:
eu também erro.
E pode ser que, nesse momento, alguém esteja guardando sua pedra por minha causa.




