Continue…


Nesta noite, numa daquelas rolagens distraídas, em meio a vídeos engraçados, anúncios aleatórios e pensamentos jogados ao vento, me deparei com uma frase.

Daquelas que não gritam, mas param o tempo: “Ninguém está torcendo mais por você do que a criança que você foi um dia. Continue.”

Parei.
Como quem ouve o próprio nome sendo sussurrado num corredor vazio.

E fui.

Fui lá atrás,
não por escolha, mas por chamado.
Chamado de algo antigo, esquecido, essencial.
Fui até onde o chão ainda era de possibilidades e o céu tão perto que bastava esticar os braços pra encostar nas nuvens.
Lá, reencontrei a criança que fui.
E me vi.

Sonhador, de olhos acesos.
Dono de um mundo inteiro que criava sem pressa, com lápis de cor, palavras inventadas e uma coragem desmedida.
Coragem de quem ainda não aprendeu a duvidar de si.
De quem fazia castelos com pedras, aviões com folhas, amigos com o vento.
Ali, onde os dias pareciam eternos e os sonhos, urgentes.

Aquele menino acreditava tanto em mim.
Sem me conhecer.
Ou talvez por me conhecer melhor do que eu mesmo me conheço hoje.

Foi ali que ele se aproximou.
Sem anúncio, sem alarde.
Não com palavras,
mas com aquele poder que só a poesia tem quando caminha de mãos dadas com a imaginação, um poder que não precisa de som pra ser ouvido,
nem de forma pra ser real.
Foi assim que ele se fez presença: silencioso, mas inteiro.
E me olhou.

Me reconheceu, apesar do tempo.
Apesar do mundo.

E então me disse, com o silêncio cheio de significados que só a infância conhece, que tinha visto tudo.
Viu as noites em que sorri para o mundo e chorei no escuro.
As vezes em que me escondi por medo de não ser suficiente.
Os dias em que vesti sorrisos emprestados para não preocupar ninguém.
As decisões que tomei com o coração em pedaços, mas os pés firmes no chão.

Viu quando silenciei para manter a paz.
E viu também quando me calaram por crueldade, por covardia disfarçada de autoridade, por medo de me ver inteiro.
Viu quando tentaram diminuir minha voz até que ela virasse eco.
Viu cicatrizes que não nasceram de escolhas, mas de violências sutis.
Viu ausências que não pedi, mas que me foram impostas como castigos.
Viu culpas sem dono que me atiraram, e que por muito tempo, eu aceitei carregar.

Mas também viu quando continuei.
Mesmo com dúvidas.
Mesmo com a alma em cacos e o mundo pedindo que eu parasse.
Mesmo com o medo gritando mais alto que a fé.

E então voltei.
Voltei ao agora.
Ao toque da tela, à luz azul do celular, ao silêncio da casa, à frase que havia parado o tempo.
E entendi.

Entendi que aquela criança ainda vive aqui.
Ela nunca partiu.
Ela apenas esperava que eu me lembrasse.
Ela me mostra, todo dia, mesmo calado, o que ainda me cabe fazer.

E o que seria apenas uma rolagem qualquer, se fez reencontro.
Reencontro com o menino que fui, e ele, com a firmeza serena de quem sempre soube, me disse muitas coisas…


Mas de tudo o que disse,
do olhar, do silêncio, da memória e da coragem,
tudo se resumiu em uma única coisa, limpa, eterna e incontestável: continue!